quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Do filme a realidade: Fragmentos de todos os ‘eus’ que nos tornamos


Fragmentado é um filme de 2017, com direção de M. Night Shyamalan. O filme   narra a história de um homem chamado Kevin, possuidor de 23 personalidades, cada uma diferente da outra, e que consegue alterna-las de acordo com o que vai vivendo.  

Como o  próprio título do filme já diz, se trata de uma filme com vários fragmentos que juntos formam a narrativa. Vemos partes quando ele muda de personalidade, quando a garota lembra de infância e ao mesmo tempo está vivendo uma situação delicada e fragmentos expostos em apenas uma personalidade.

A narrativa, começa a tomar um mistério logo no início quando Kevin sequestra três garotas que se encontram no estacionamento depois de comemorarem o aniversário de uma delas. Primeiro ele consegue fazer com que as duas desmaie para depois a outra, que até então só leva importância quando tenta fugir abrindo a maçaneta do carro.  
Vivendo em cativeiro, as garotas se assustam com as mudanças de personalidades de Kevin, elas tentam escapar diversas vezes e com isso cada uma vai para um quarto diferente.

Casey, se destaca como uma pessoa diferente desde início do filme, ela que ao que parece não gosta de se enturmar consegue sobreviver até o final usando artifícios de persuadir o sequestrador com várias personalidades. No primeiro momento do filme, notamos uma festa de aniversário, Casey não comemora tanto quanto as amigas de classe parecem comemorar. Sempre vista em seu canto, até mesmo quando raptada ela consegue unir coisas que estão acontecendo no presente, como o sequestro, e associar isso ao passado quando o pai a levava para caçar.

Notamos que quando Casey consegue entender um pouco o acontecimento, ela leva lições que o pai e o tio a teria ensinado. Atenta aos detalhes de Kevin ela consegue ter uma pequena idéia da situação, de suas personalidades e do que estaria acontecendo.  

As amigas, sempre vemos assustadas, uma reação que seria comum em qualquer pessoa, mas existe um momento específico e que se torna relevante, quando Kevin fere uma delas, ele diz que ela nunca sofreu de verdade na vida, como ela nunca ter tido algo para traumatizar. Nos perguntamos se ele tivesse dito isso a Casey, ela entenderia algo a mais do que simples palavras?  

Uma doutora também aparece no filme, no começo não entendemos bem quem é ela, mas logo vemos que se trata de um tipo de psicóloga que gosta de tratar pessoas com várias personalidades, acreditando que talvez eles sejam mais evoluídas. A Dra. Karen Fletcher, a todo momento parece saber com o que está lidando e quais riscos está se colocando. Vemos lágrimas no seu rosto a cada descoberta que ela faz sobre as identidades de Kevin. Teria ela visto ou sofrido algo semelhante ou apenas uma emoção vendo a maneira como o outro sofre?  

No final do filme, quando Dra. Karen chega na casa do personagem, vemos que existe compaixão e lágrimas em sua fisionomia e olhar, teria ela se dado conta do risco que estaria correndo? Visto que talvez, ela já tinha conhecimento de todo o plano, antes mesmo da personalidade do Kevin desabafar, ela pedir para ir ao banheiro e notar as três portas onde estariam as vítimas.


Sabemos que o filme se trata das personalidades de Kevin, assim como sabemos que ao que parece ele não tem controle sobre elas. Ao mesmo tempo que ele está de bem com a vida sendo uma criança de nove anos, ele pode transformar em uma mulher ou mesmo em um adolescente. Ao levarmos o filme para nossa realidade, não seria um espelho de quem somos?  

Existem dias que acordamos crianças, e outros que temos sensações de sermos adultos, tudo existente em apenas uma pessoa, óbvio que destacamos que o caso de Kevin se trata de uma doença, porém vemos que o filme afirma que todos nós somos assim, e que talvez esses casos sejam de pessoas mais evoluídas visto que não conseguem esconder dos outros quem são e nos momentos que são.  

Notamos que o personagem Kevin, vivencia isso após, ao que parece ter sofrido, um drama em sua vida. Não seríamos todos assim? Quando passamos por algo, mudamos nossa maneira de ser, às vezes aprendemos e nos modificamos. Com algo trágico temos o poder de criar outros personagens dentro do cérebro e com isso superar acontecimentos.
Kevin, cria os personagens porque acredita que aquilo o dará a liberdade e o protegerá quando algo vier a tona. No filme não fica claro o acontecimento que o deixou nesse estado, porém sabemos que aconteceu.  


Ao mesmo tempo que vemos Casey viver com as lembranças  da infância, vemos que Kevin sobrevive inconsciente com as dele, porém cada um de maneiras diferentes. Se por um lado Casey apronta na sala para ser mandada em detenção e só então ficar sozinha, por outro vemos que Kevin assume várias personalidades. Haveria esse um motivo de Casey tentar ser toda paciente e fugir da situação? Ela consegue entender tudo que se passa e mantém a calma, vemos medo em seu rosto, mas vemos coragem em suas atitudes. Os dois personagens já sofreram um drama na vida, porém cada um soube fugir do problema de maneira diferente e revelar maneiras de viver a situação.  

O diretor consegue trabalhar muito bem, assim como a cenografia trouxe uma emoção e um arrepio, nos fazendo sentir que estávamos presos juntos as meninas. A direção de arte é maravilhosa, tanto o figurino como as cores, elas combinam com cada personagem do Kevin como também com as situações. Se por um lado ele é estilista, ele está na casa toda arrumada, se por outro ele é jovem vemos que está no seu quarto cheio de desenhos pregados na parede.  

Vemos que no lugar não existem janelas, a única que vemos é quando Kevin mostra que a janela que ele dizia era apenas um desenho, seria esse um jeito de dizer que vivia preso por medo dele mesmo, ou então por ter uma rejeição a ajudas? Visto que a psicóloga a todo momento está pronta a ajudá-lo, mas propositalmente ele acaba desvencilhando da situação em que é oferecida.  

Temos em Kevin, passagens da vida que todos nós passamos, a infância tendo sua inocência, curiosidade e a sabedoria de obedecer alguém mais velho, a juventude, uma fase se experimentar coisas novas, como ele mesmo afirma nunca ter beijado uma garota, a profissional que seria ele estilista, empolgado e confiante em si mesmo, a mulher que seria uma parte misteriosa, e o religioso, quando ele coloca Casey de volta ao quarto parecendo um budista.  Kevin, é uma mistura de várias personagens, não as escondendo e sim as revelando de maneira que elas possam existir mesmo.  

A incerteza está no filme o tempo todo, não sabemos se as garotas sairiam vivas, se a psicóloga conseguiria ajudar o personagem e principalmente qual seria o destino final dele, visto que ele era vários personagens dentro de um, e qual seria então o único, afinal de contas? O que criou todas as peças para proteger do drama sofrido, e que agora perdia o controle sobre si mesmo, ou um dos que foram criados?

Podemos dizer que o filme é mais um drama do que um terror. A doença faz que o personagem seja narrada ao mesmo tempo mocinho e vilão. Se nos primeiros momentos ficamos com raiva porque ele sequestra e assusta as meninas por outro tomamos consciência que ele não tem o controle quando está assumindo os outros personagens.

Kevin, é autor e personagem do que ele mesmo cria em sua mente, o que ele sente e o que se torna está sem controle, não vemos um jeito de escapar disso, visto que quando está com a psicóloga ele mesmo se tranca de uma forma a não querer liberar os fatos de sua vida.   

Ao longo do filme vamos tendo consciência que a besta é ele mesmo, ele cria mais um personagem para se proteger. Em suas falas finais vemos que ele diz “somos o que acreditamos ser”, e não seria essa uma realidade?  Ele acreditava ser a besta e se tornou, do mesmo modo que acreditava-se ser todos os outros personagens.

O filme me surpreendeu, primeiro por ser o primeiro gênero de terror que eu quisesse que as coisas acontecessem, segundo porque, além do final surpreendente, nos damos conta de uma doença, que até então era meio obscura de entender quando é estudada em escolas ou casos jornalísticos, terceiro por ensinar que a única maneira de sair ileso de uma situação, séria como na caça, calma, paciência e observar detalhes, por quarto, e último, por reforçar a idéia que somos o que acreditamos ser, e ninguém pode impedir isso, assim como a psicóloga não conseguiu.