sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A misteriosa arte daqueles que desaparecem depois de um encontro

Senhoras e senhores, vocês estão vendo esse coelhinho sobre a mesa? Não lhes parece um ser amável, dócil e comum? Pois ele é encantado. E desaparecerá assim que eu o tocar com essa varinha, dizendo-lhe as palavras mágicas. Repitam comigo: amanhã, depois de um “encontro”, Cabum! Sumiu! “Ohhhhh”, exclamam os corações perplexos!



Qualquer semelhança com a vida não é mera coincidência. Mágicos escondem coelhos num fundo falso, assim como pessoas escondem seus sentimentos. Quer mágica mais clichê do que essa de desaparecer após um encontro? Pois bem, vamos à descrição dos truques. O mais popular deles é o desaparecimento após perceber que o outro não era de fato aquilo que se imaginava; não houve a química esperada, então adeus. Há também o truque “após uma noite linda de amor”, em que a pessoa no outro dia evapora feito éter, pois, ainda que esconda, ela é comprometida. Há o truque da “diversão combinada unilateral”, o sujeito se diverte às pampas, no dia seguinte liga o egômetro e some encantado por detrás de uma fumaça enfeitiçada. Tempos depois, aparece assim de repente, cheio de amor pra dar, como se nada houvesse acontecido. Por último e não menos importante, há o truque do “sumiço teatralizado”, jogo de cena, popularmente conhecido como “fita”; para esses mágicos, ganha quem se importa menos, ganha quem finge não se apegar.
Tirar do esconderijo a obviedade que requer a execução de tal número, talvez não seja a mais difícil das revelações. Meia pitada de sinceridade e o segredo do moço ou da moça desaparecida fica tão óbvio quanto o coelho escondido no fundo da cartola. A verdade, sem efeitos especiais, é simples: o sujeito não quer. Não quer o depois do encontro. Não quer nada para amanhã. Sumiu porque não topa. Nessa história de abracadabra, todos nós, em algum momento da vida, caímos feito patos no truque; ou fomos nós os ilusionistas fugidios. O fato é que a honestidade sentimental é característica cada vez mais escassa. São poucos os que prestam atenção aos seus sentimentos com sinceridade e, mais escassos ainda são os que demostram se importar com o que o outro sente.
Concluir, terminar, fechar aquilo que ficou aberto e não deu certo é digno, reflete a maturidade daqueles que já aprenderam o valor das relações humanas, do respeito e da gentileza ao próximo. Deixar incompleto é também o argumento dos inconclusos, dos que acreditam em sua perfeição, não toleram seus próprios erros e tampouco sabem escolher ou perder — já que escolher é sempre perder. Desaparecer é a única saída para quem se acovarda diante dos próprios sentimentos.
Amor é bom juntinho, se não for assim, evite as quedas mantendo distância de gente escorregadia. Eu sei. Nem tudo é sinergia. Tem santo que não bate, beijo que não encaixa, mãos que não se dão direito, momentos de vida desencontrados. Mas será que podemos ser sinceros e ao mesmo tempo gentis uns com os outros? Facilitaria tanto se as pessoas usassem a linguagem verbal para se expressar. Acreditem, essa mágica ainda funciona!

Autora Ruth Borges, originalmente publicado em Revista Bula