segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A era do mau gosto: do palestrante midiático a Romero Brito



Não sei quando o adjetivo brega entrou em uso. Sei que entrou, saiu e até andou voltando. Talvez seja o adjetivo mais expressivo quanto ao mau-gosto, a caixa popular na qual se possa guardar o segundo tipo de filisteu da cultura, analisado por Hannah Arendt.
O primeiro filisteu é o mero comprador de livros e obras de arte. O segundo é o que tenta fazer o mesmo e, pior que o primeiro, realmente lê alguns livros e tenta admirar a arte, mas, uma vez sem formação, faz da leitura e do específico apreço à arte um trampolim profissional, uma tentativa de distinção social e, por fim, um uso errado do que pensa entender. Esse filisteu é o que mais se aproxima do brega. Ele compra a coleção inteira do Freud para ter no seu “escritório” ou “biblioteca”, mas não fica nisso, vai a um tipo dessas Casa do Saber espalhadas por aí para tentar entender o “Mal estar na civilização”. A desgraça é que lá pode encontrar um tipo de professor que fala de felicidade, inveja, Impeachment, ou seja, de tudo, e que ensina, também, a como gostar de arte! E eis que esse pretenso membro da elite compra Romero Brito. Afinal, é “bem alegre, colorido”. Gosto infantil e gosto brega se confundem. O filisteu da cultura se refestela na sua lama de ouro que, no fundo, é bijuteria. É bijuteria cara, que ele compra no Shopping do tipo Cidade Jardim ou JK, mas que existe na 25 de Março por qualquer cinco reais.
Todo país tem isso. Mas no Brasil, de uns tempos para cá, esse tipo de gente, inclusive que se acha politizada, proliferou de um modo tal que desfigurou o entendimento que a mídia pode ter do que é cultura popular, cultura erudita, cultura acadêmica e cultura de massas. Essa divisão utilizada pelo professor Alfredo Bosi, nos anos setenta, é hoje desconhecida dessa gente e, claro, dos professores – que inclusive agora já estão em universidades – que ensinam esse pessoal na arte do não saber, ou seja, o campo em que tudo que é cultura é só cultura de massas.
O palestrante fala a frase “Conhece-te a ti mesmo”, de Sócrates, e a lê erradamente como se tivesse a ver com uma investigação individual psicanalítica. Falta de formação. Seu diploma pode até mostrar isso, mas o local de trabalho, às vezes melhor, esconde isso. Mas continua falando. O cinema de arte cede a “O segredo” e aos “Cinquenta Tons de Cinza”. A medalha de ouro das Olimpíadas desgasta depois de um tempo. Bauman vira leitura válida! Gente que  só pode pegar um autor de uma frase só (mas, como ler alguém com mais de 140 caracteres, né?). A esquerda pseudo culta fala de Lacan, porque é alguém que nunca escreveu e, então, dele se pode dizer qualquer coisa. A pichação e o grafite já não se distinguem. Por fim, até o nazismo vira “ideologia de esquerda”. Professor começa a falar em um tom só, como aeromoça velha. Por fim, diante disso, aquele cara que diz que não vê o BBB e acrescenta no Facebook “prefiro um bom livro”, começa a ter o direito de se achar intelectual. A breguice do antes chamado novo rico adentra um mundo que tinha muros. Agora, muro é coisa para mexicano. Afinal, até a Bíblia, nos nossos tempos, anda por aí nas mãos de gente que pensa que Jesus tinha rifle, ou pior ainda, nas mãos de ateu-de-Internet.
No limite, estamos diante de uma sociedade que menosprezou a cultura escolar básica, vem pagando mal seus professores do ensino fundamental e médio, e que então não tem mais como apresentar elites que sejam elites. Quem observa o Brasil com visão histórica percebe que o ensino ruim na base está dando sim reflexo entre o que seria a classe média. Produz uma camada de gente que se vê como “formador de opinião”, mas que são um grupo de degradados. Os tais “cafés filosóficos” mostram bem isso. As pessoas são reunidas para ouvir alguém vomitar opiniões pessoais que, nos anos 60 e 70, podíamos dar aos borbotões antes de entrar na faculdade, porém bêbados em algum boteco que, naquela época, podia sim vender bebida para menor. Foi uma época em que não éramos sábios, mas sabíamos que sabíamos menos que nossos professores, porque de fato eles eram de um peso de um Alfredo Bosi.
Somos hoje um país no qual o Lula diz quem é e quem não é “das elite”. E então, combatemos elites para nos dizermos democráticos. Nenhum país do mundo democrático que não jogou fora a sua escola amaldiçoou elites. Diferentes de nós, fazem  elites a partir do saber que vem de uma formação, não a partir da capacidade de seguir o zum zum zum diário.
Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo.
http://ghiraldelli.pro.br/