segunda-feira, 20 de março de 2017

O cachorro é o grande desafio moral de nossas tempos

“Todos os animais foram dotados de recursos naturais para se defenderem e para, desde pequenos, sobreviverem, só o homem vem ao mundo frágil, e nele permanece assim”. Essa frase é a rainha de uma péssima antropologia. Essa antropologia é a base do que o filósofo alemão Peter Sloterdijk tem chamado de Internacional Miserabilista. Do que se trata?
A Internacional Miserabilista é uma expressão que parodia o nome Internacional Socialista. Neste caso, tratava-se do agrupamento de partidos comunistas no mundo (existiram basicamente quatro Internacionais, contando de Marx a Trotski). A Internacional Miserabilista seria, então, o agrupamento de partidos que trabalham sempre considerando a antropologia que toma o homem como naturalmente pobre de recursos. Nessa linha, baseia-se o grande leque de pensamento que se recusa a ver no homem sua riqueza, seu plus, sua capacidade de ascetismo e esbanjamento. Essa recusa permite desenhar o homem como uma vítima a mais no mundo. Nessa linha, o homem nasce pobre e sempre está pobre. Os recursos sempre faltam. O homem não pode ajudar o outro homem, pois o que dá irá faltar para ele mesmo. O homem pode ajudar outro, mas na base da caridade de tirar da boca de seus filhos — e assim por diante é constrói-se um choro universal.
Segundo esse tipo de pensamento, o homem é ser de defesa. Precisa se defender. Assim, teria desenvolvido a inteligência não como um dom, mas como uma necessidade, uma revanche contra a pobreza natural, contra a sua falta de proteção. O homem é o animal sem pelos. O caniço andante de Pascal. Tadinho do homem! Marx descobriu o que poderia reverter isso, o fato do homem no regime capitalista produzir mais-valia, e não percebeu que isso desmentia toda a antropologia da Internacional Miserabilista, e então sucumbiu rápido à ideia de que tal coisa não teria sido o exemplo maior do homem como não pobre e não vítima. Marx não levou a sério a palavra “plus”, quando colocou O Capital no francês. Caso tivesse feito isso, teria encostado melhor em Bataille e Nietzsche, e acertado bem mais.
Sendo o homem pobre e estando ele sempre na defensiva, inauguramos por essa antropologia uma justificativa para uma moral que faz de nós aqueles que ganham direitos de ataque a tudo que nos rodeia. Essa moral estaria baseada nessa situação própria, essencial. Mas não é bem isso. Na verdade, a moral poderia ser pensada, para ser moral, pela ideia da liberdade do homem de, sendo rico, principalmente pela sua capacidade mental desenvolvida, de não se colocar diante dos animais como se fosse pretensamente fraco. Pois não é. O homem diante dos animais se porta como algoz, e cria uma moral torta que o faz acreditar que está diante de monstros. Quando saímos na rua, notamos bem isso. As pessoas se mordem umas as outras, mas nunca perguntam se isso vai ocorrer, o que fazem é perguntar para dono do cachorro ao lado “ele morde?”. Sempre respondo: “a senhora morde, ele nunca”. Mas o homem é o fraco, e o cão, que só o ama e não sabe de nenhuma má intenção, está ali de inocente, não faz ideia que estão falando dele como um algoz. Essa inversão é permitida pela antropologia do homem fraco, a visão que dá guarida para a Internacional Miserabilista.
“Não, minha senhora, seu filho pode chutar o cão, seu filho é um crápula, não o meu cão”. Meu cão é sempre aquele que não sabe que está diante do homem, este ser que tem a moral da desculpa. Nenhum cão merece ter focinheira, pois nenhum deles é “bravo”; ele é o que o homem, o dono da moral da covardia e da traição, faz com ele. Os cachorros precisam de um regime punitivo de uma vida toda para se tornarem agressivos. Esse regime não é feito por cães.
O ataque de um homem a um cão é um falta moral gravíssima. O desleixo do homem ao cão já é também uma falta moral. Pois o cachorro espera o cuidado do homem. O cachorro viveu com o homem quando ele não era ainda cão e o homem não era homem, e nessa época foi gerado em simbiose um laço que se transformou em laço fisiológico-psíquico. Quando o homem domesticou o cão, bem mais tarde, o cão não havia esquecido tal laço, mas o homem sim. Aos poucos o homem parece perceber tal laço. Algumas pessoas, então, trazem o cães para casa, e sabem que ele faz parte da família. Os cães não são humanos, mas eles nos educaram para que chegássemos a ser os humanos que somos. Todavia, permaneceram eles próprios quase humanos, embora infantis. Querem o cuidado que tínhamos com ele, em ressonância que se tornou física, do tempo das cavernas. Por isso, se levam um chute nosso, voltam a nos agradar. Assim fazem mil vezes, em relação ao dono. Pois nos tomam como irmãos, como parentes. Há homens moralmente superiores que percebem isso. Há os que não percebem. Esses que não percebem, precisam da lei para que percebam, uma lei rígida que quebre com a hegemonia do pensamento da Internacional Miserabilista.
Nossa humanidade dará um passo quando começarmos a nos responsabilizar pelos cachorros, devolvendo amor a eles, jamais traindo a expectativa deles em relação a nós. Atacar um cachorro é uma falta moral muito mais grave que atacar um homem, pois é sempre uma emboscada, uma covardia. Não ajudá-lo é a mesma coisa.
O reconhecimento dessa expectativa do cachorro em relação a nós não é “especismo”, é o primeiro passo para olharmos para outros animais com a perspectiva ampliada, que virá um dia a ser hegemônica. Pois a antropologia da Internacional Miserabilista está errada. E há de cair.
Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo.